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José Carlos de Oliveira Lima

José Carlos de Oliveira Lima

 

O déficit habitacional é uma das chagas do Brasil. Como medida de diminuição do problema, foram criados programas habitacionais como o Programa Minha Casa, Minha Vida destinado à famílias de baixa renda. Estima-se que os subsídios para financiamento desses projetos cheguem a R$ 34 bilhões. Contudo, ao que indicam alguns analistas, existem alguns gargalos que vão desde a rigidez da aprovação até o preparo do setor para esse tipo de construção em larga escala.

Para comentar o assunto, entrevistamos José Carlos de Oliveira Lima, graduado em engenharia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, ocupa atualmente o cargo de vice-presidente da FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e é diretor titular do Departamento da Indústria da Construção (DECONCIC).

Com que números do déficit habitacional o DECONCIC trabalha?
José Carlos – Com 5,8 milhões de moradias, sendo que esse dado foi apresentado no 4º Relatório Nacional de Acompanhamento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio – Março/2010 – Fonte Ministério das Cidades e utilizado nos estudos do 8º Congresso Brasileiro da Construção (Construbusiness).
 
De que maneira o senhor analisa estes programas de governo criados para estimular o mercado de moradias para a população de baixa renda?
José Carlos – Analisamos como ações governamentais positivas, pois o déficit habitacional, embora tenha mudado a metodologia de cálculo em 2009, ainda contínua sendo muito expressivo. Outro dado importante é que, estudos realizados por consultorias especializadas nos mostram que na atual dinâmica familiar, há a tendência do aumento da necessidade de novas moradias, contando ainda com o crescimento populacional e da formação de novas famílias. Tanto o Governo como o setor privado, tem que articular para reduzir o déficit. Sabemos que os programas não irão resolver, mas já sinalizam caminhos viáveis.
 
Podemos afirmar que as soluções construtivas devem ser mais produtivas e sustentáveis do que os atuais processos construtivos?
José Carlos – Sim, sem dúvida. Não se pode construir um Brasil melhor sem inovar, sem tecnologia, sem processos que permitam rapidez, qualidade, custo equilibrado, inclusive com as questões de diferenças tributárias que penalizam empresas que se utilizam de processos produtivos inovadores. Também é importante atentarmos as diferenças de desenvolvimento regional, existentes no Brasil. Ex.: Os métodos construtivos utilizados no Sudeste são diferentes dos usados no Nordeste, onde inclusive o déficit habitacional é igualmente alto.
 
Quais entraves podem ser identificados no processo de aprovação dos financiamentos?
José Carlos – O gargalo está na burocracia. Em novembro de 2009 apresentamos em nosso estudo técnico, na ocasião da realização do 8º Construbusiness, sob o comando do DECONCIC/FIESP, um case da Cidade de São Paulo, onde para se aprovar um projeto habitacional, apuramos que são necessários 35 etapas a serem percorridas nos vários órgãos do governo (secretarias) e, no Brasil, o processo pode demorar 411 dias, inclusive mais de uma vez em alguns deles.
 
O senhor acredita que os projetos e projetistas estão qualificados levando em consideração a modularidade, a racionalização e a industrialização já existentes?
José Carlos – Atualmente já temos profissionais dessa área atentos e capacitados para com a questão em referência, porém com atuação muito tímida. Nós do DECONCIC, lançamos em 2007 um estudo técnico chamado Proposta de Política Industrial para Construção Civil – Edificações, que traz em seu conteúdo questões sobre a necessidade de uma coordenação modular, de código de obras unificado, da necessidade de normas técnicas atualizadas, da melhoria da capacitação profissional e da inovação tecnológica. Esse estudo requer atuações conjuntas do setor privado e do setor público e para tanto, formalizamos um convênio com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Caixa Econômica Federal (CEF), Ministério das Cidades (MCIDADES) e DECONCIC/ FIESP, para os desdobramentos práticos, das propostas elencadas no estudo.
 
O senhor considera que o setor está preparado para construções habitacionais em larga escala?
José Carlos – O setor está preparado e está investindo para esse momento atual de crescimento, porém para construções em larga escala, ainda está faltando investimentos na área da construção industrializada e inovação tecnológica, sem perder o foco da qualidade dos produtos e da construção.
 
Caso a cadeia construtiva não consiga atender essa demanda, quais são os riscos? Existe a possibilidade de recorrer a soluções internacionais?
José Carlos – A cadeia produtiva está se articulando rapidamente com resultados já positivos, porém pelo fato de estarmos em momento aquecido, naturalmente em alguns casos se cria uma janela. No caso da mão de obra, o que ocorre é que isso acaba gerando migração de funcionários de uma empresa para outra, e isso não é saudável, pois gera aumento de custo e retrabalho.
 
A mão de obra para o setor está preparada para oferecer qualidade em quantidade?
José Carlos – As informações que nos chegam pelos elos da cadeia produtiva, são de que a questão da falta de mão de obra, tanto técnica como a intelectual, já é um ponto crítico ao cenário atual da construção que vive bom momento. Qualidade e quantidade são coisas bem distintas e precisamos das duas. Precisamos capacitar e qualificar e precisamos ampliar o número de trabalhadores no setor.
 
Como o senhor enxerga a aplicação do aço nesse caso?
José Carlos – O aço é tão importante como outros insumos do setor. Felizmente o mercado nacional é muito amplo e há espaço para todos e para todas as tecnologias. O importante é respeitar as expertises de cada insumo e suas possíveis aplicações. Quem inova e investe sai na frente e vejo que o setor do aço está atento a isso.
 
Como a iniciativa privada pode contribuir para este processo?
José Carlos – Nós do DECONCIC/ FIESP, estamos atentos e tomando providências em defesa do setor. Constituímos recentemente dois grupos de trabalho (técnico e intelectual), para que a curtíssimo prazo, possamos concluir e viabilizar um projeto de capacitação e qualificação, em vários níveis para que a demanda se torne menor dia-a-dia. Além do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI-SP), com unidade específica de treinamento para o setor da construção, pretendemos ampliar o programa para treinamentos e capacitação em obras e nas indústrias, e com relação ao nível intelectual, fomentar atividades com grades específicas para o setor, dentro das instituições de ensino superior.
 
Qual a contribuição do Congresso Brasileiro do Aço do qual participou no mês de abril?
José Carlos – O evento foi de grande importância, não só pela quantidade de público participante, mas pelas qualidades dos temas que lá foram debatidos. No painel que tive a honra de participar, falamos de questões muito importantes para o desenvolvimento do Brasil. Os representantes do governo que lá estiveram se mostraram comprometidos com o setor e isto foi comprovado quando em minha fala, de primeira mão, informei aos presentes, a medida de ampliação do prazo da redução do IPI, para dez/2010, anunciado naquele dia pelo Ministro José Carlos Mantega. Outro ponto importante foi a Vila do Aço, que apresentou muito bem, soluções completas para construções habitacionais e de seu entorno, a partir do aço.
 
Qual reflexão o senhor gostaria de acrescentar sobre a situação atual?
José Carlos – Temos que aproveitar o momento de definição do novo governo federal face às eleições, e pleitearmos para que o Brasil tenha uma política de estado de longa duração e não somente programas de governo. Em breve deveremos ter concluído estudos e soluções para apresentar aos presidenciáveis, focando principalmente a infraestrutura brasileira como prioritária, face aos enormes gargalos hoje existentes.
 
DECONCIC
O Departamento da Indústria e Construção Civil (DECONCIC) é um órgão da FIESP que reúne a cadeia produtiva da construção civil e desenvolve uma série de projetos que visam atender as necessidades do setor. Com o objetivo de propor alternativas para o desenvolvimento do país, o DECONCIC compreende o apoio e a realização de eventos, seminários, bem como ações externas destinadas aos interesses das indústrias junto às instituições públicas e privadas.
 
Fonte: http://www.abcem.org.br/midia-revista-online.php

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